quarta-feira, 2 de março de 2016

A raça humana



O recanto remoto no Quênia que conta a história da raça humana
Melissa Hogenboom BBC Earth
  • 6 janeiro 2016
2ª e última parte


Expansionista
O "Menino de Turkana" também revelou que sua espécie andava mais como nós do que outros hominídeos. O erectus centralizava seu peso sobre o pélvis ao caminhar, assim como nós fazemos. Ele também tinha pés arqueados e uma passada relativamente longa.

O "Menino de Turkana" também tinha a capacidade de carregar objetos enquanto caminhava. "(O Homo erectus) deu pistas de como nós humanos nos locomovemos de formas diferentes de outros hominídeos ancestrais e primatas", explica Shea.

"O erectus era um bom corredor de resistência e bom de carregar coisas. Se você é capaz de correr, você pode perseguir. O que perseguia o erectus?"

Há outras evidências apontadas por outros estudos. A família do menino poderia carregar ferramentas de caça, como lanças. A anatomia das mãos sugere capacidade de fazê-lo. Lanças não se fossilizam, mas uma pesquisa de 2013 sugere que o Homo erectus tinha habilidade para lançar coisas.

Em contrapartida, outras espécies de primatas têm pouco potencial. E o mesmo se pode dizer de nossos ancestrais comuns, que passavam mais tempo em árvores.


 
 O Homo erectus é um dos ancestrais humanos



O Homo erectus, então, era um melhor caçador, o que ajudava na expansão de seu território. Algo bastante útil, já que o clima variava de maneira extrema naquela época. As florestas em que ancestrais viveram estavam se transformando em campos abertos, onde humanos tinham menos locais para se esconder de predadores.

Shea explica que as opções eram recuar para as arvores restantes ou enfrentar as ameaças de frente.

Ferramentas

O Homo erectus parece ter escolhido a segunda opção. E pode ter optado por formar grupos, tornando-se menos vulnerável em atividades como o trabalho e a caça. Consequentemente, a espécie teria se tornado mais social. Há evidências de que ele sabia transmitir informações e trabalhar em equipes.

Machadinhas de pedra encontradas na África e em outras partes do mundo datam do período do Homo erectus e isso sugere que a espécie podia tanto fabricar as armas quanto compartilhar a habilidade com outros. Foi no lago Turkana que a mais velha dessas machadinhas foi encontrada, em 2011, datando de 1,76 milhão de anos atrás.

Ignacio de La Torre, da Universidade College London, diz que as machadinhas feitas pelo Homo erectus persistiram por mais de 1 milhão de anos, por serem versáteis – algo como os canivetes suíços de hoje. Eram, por exemplo, ideais para extrair a carne de carcaças de animais.

E a persistência de seu uso como ferramenta ao longo do tempo sugere que a machadinha era uma ferramenta fácil de ensinar a fabricar. Isso, porém, não quer dizer que o Homo erectus dominava a linguagem. Shea fez um experimento em que 500 estudantes conseguiram fabricar a ferramenta sem falar uns com os outros. Ainda assim, as machadinhas são de confecção mais difícil que as lascas de pedra atribuídas ao Homo habilis.

                                      A machadinha do Homo erectus tinha "fabricação em série" 

Mas o lago Turkana também tem segredos sobre o que acontecia com os humanos bem antes em sua evolução, antes mesmo do surgimento do Homo. Em 1974, pesquisadores descobriram na Etiópia um fóssil de 3,2 milhão de anos de idade da espécie Australopithecus afarensis, apelidado de Lucy.

Lucy imediatamente surgiu como um forte candidato a ancestral direto humano, já que se tratava do que mais velho se encontrara.

Mas descobertas em Turkana revelaram que havia diversidade na era de Lucy. E, em 1990, uma equipe comandada por Meave Leakey, filha de Richard, desenterrou um possível antepassado de Lucy, batizado de Australopithecus anamensis.

Tinha pelo menos 4 milhões de anos de idade. Anos depois, uma nova espécie foi descoberta: Kenyanthropus platyopus, ou o "homem da cara achatada". Essa espécie viveu há 3,5 milhões de anos, dividindo espaço com membros da espécie de Lucy.

O solo vulcânico sob o lago ajudou a preservar os fósseis 


 Isso mostrou que havia vários concorrentes para o posto de "ancestral comum" do homem e matou a ideia de que evoluímos de uma única linhagem. E o lago continua oferecendo material: em 2015, foram descobertas as mais antigas ferramentas de pedra, datando de 3,3 milhões de anos. Tais ferramentas são mais antigas que qualquer fóssil de Homo já encontrado, sugerindo que espécies anteriores também podiam construí-las.

"Essa descoberta foi crucial. Antes pensávamos que havia ligação entre a emergência de humanos e a tecnologia. Mas isso não parece tão verdadeiro agora", afirma De La Torre.

Se o lago Turkana certamente não foi o único lugar da África em que a evolução humana ocorreu, é uma sorte para a ciência que ele seja a "armadilha geológica" perfeita para montar um imenso painel de nossa história, e uma espiadela na vida de nossos antepassados bem, bem remotos.

Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Earth